sexta-feira, 1 de agosto de 2008

heterossexualidade pura

– Estava eu sentado no terraço a ver a olhar o mar

– Eu estava debruçada sobre ti

– Estava quase a chorar

– Abracei-te como nunca o fiz
– Pensei muito durante essa tarde pensei tanto… ia ficando louco
– Amei-te continuamente sem intermitências e serena. Conta-me mais… fala-me dessa tarde para sempre e sempre

– Não posso… já não a vejo

– Falo eu então meu amor

– Não… Eu tenho de ver… de voltar a ver e de olhar outra vez para o mar

– Vês ainda? Consegues ainda ver?

– Não sei já se não quero ou se não consigo

– E não é a mesma coisa?

– É

– Perdeste alguma coisa?

– Eu

– E quem me fala agora então?

– A minha voz

– Dádiva?

– E prazer

– Vou dizer-te quem és… Vou dar-te… Dar-te a ti… Devolver-te de mim…

– Se de mim me dás a mim… dou mais do que sou… não me torno assim mais do que aquilo que sou ao devolveres-me o que fui de ti?

– Se não guardaste o que me deste não…

– Devo então guardar-me em vez de dar-me?

– Deves antes revelar-te e dares-te naquilo que és em vez de dares o que és

– Mas se dou o que sou no lugar de me dar não terei dado um fantasma de mim?

– Terás antes criado em mim uma emoção voluptuosa que me terá enriquecido e embelezado. Sorrindo. E… no meu sorriso ter-te-ei devolvido um simulacro de emoção voluptuosa que te terá enriquecido e aumentado

– E tu?

– Poderei então contar-te outras histórias… E então tu…

– Saberei narrar também. Saberei nadar além ao longe naquele mar para lá do paredão. Além bem longe para lá de mim e de ti. Saberei amar em ti o que sou e em mim o que és… multiplicando-me e aumentando-me sempre e sempre. Assim como tu fazes

– Mas então deixas de ser tu não é?

– Eu?

– Deixas de ser a tua voz

– A minha voz conta sempre e sempre as histórias assim como a tua

– Sorri meu querido

– Sim… estava Sol

– Estavas só.

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