Se tivesse de eleger um único fragmento d’A Moeda Viva , como se diz, para a posteridade, seria este: «só existe uma comunicação universal autêntica: a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Primeiro, porque esta passagem aponta para a impossibilidade de expressar numa outra língua a singularidade do ser textual a traduzir, a não ser por via de uma escrita intuitiva, guiada por sinais vindos do corpo e transmitidos pela pele. Depois, porque o excerto revela a principal linha de força do ensaio de Pierre Klossowski: a expressividade.
Não me propondo aqui fazer uma leitura d’A Moeda Viva (mas tão-só um breve apontamento sobre a experiência de traduzir o autor), obrigatória é, no entanto, a alusão à diversidade de termos e conceitos que povoam e assombram, quais fantasmas, para melhor o constituir, o território do discurso. Essa multiplicidade gera assim um estilo único, uma voz inconfundível, uma univocidade do ser; ou seja, uma única expressão para os seus múltiplos termos, fantasmas, simulacros. Eis a expressão do pensamento de um monómano – alguém que se fixa, repetidamente, numa única cena diversificada ora pelo acto, ora pelo objecto do acto, ora pelo actor: um corpo que se dá a ver a outro, nem que seja de si para si. Ora, esta encenação serviu, precisamente, o trabalho do tradutor.
A primeira versão portuguesa do texto foi redigida em 2001, foram, assim, necessários sete anos, número mágico (na ocorrência), para encontrar o lugar e o momento exacto para a sua publicação. Depois do encontro inicial, o da ligação, com José Bragança de Miranda, veio o encontro final, o da construção, com a Antígona. Um encontro para um acontecimento, uma vez por todas. O texto foi retomado, revisto, reescrito – numa palavra, reencontrado –, para pactuar com um processo que veio aumentar a sua respectiva imanência, tornando-o diverso, repleto de dobras e linhas de fuga. A tradução ganhava assim, por sua conta, a diversidade que lhe era indispensável para poder alinhar-se, ainda que paralelamente, com o texto que clamava ser traduzido.
Os termos, os conceitos, o frasear, foram sempre constrangidos e como que forçados pelo carrasco da sintaxe de maneira a manter perceptível, numa nova língua, a vítima suprema: o texto ainda não traduzido, virgem. Mas esse clamor klossowskiano exigia já e ainda um retorno do seu movimento interno: o da supremacia da musicalidade da expressão sobre a sintaxe. E é isto que sucede no frasear d’A Moeda Viva. O meu papel consistiu aqui em versar um ensaio filosófico, mas também em manobrar uma obra poética e literária, forjada num gesto de repetição, mas repetição da diferença, a diferença de um estilo. Este trabalho da segunda mão, da tradução, veio assim fechar um círculo que estava viciado pelo desejo de tradução, com recurso à libertação de um simulacro de texto: uma declinação diferencial na séria das línguas estrangeiras e estranhas à vítima virginal. O movimento simultâneo de encenação exibicionista e voyeurista – interno ao texto – assentou que nem uma luva ao meu papel de tradutor e permitiu a criação de uma nova epiderme, uma nova matéria textual capaz de realizar, afinal, um devir: «a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Se tiver sido bem sucedida, esta nova camada aposta ao texto virgem será a sua moeda viva, ao mesmo tempo o corpo textual que clamava ser traduzido e a sua tradução.
Luís Lima
sexta-feira, 9 de maio de 2008
TRADUZIR: A MOEDA VIVA
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2 comentários:
Gostas-te muito de traduzir este livro, sem dúvida dos que já traduziste foi o que mais prazer te deu e conseguiste aguçar a minha curiosidade e vontade de ler, não conheço o autor, nunca li nada dele, mais uma razão. continua a escrever.
Obrigado pela curiosidade e desculpa só agora dar resposta. um beijo.
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