porque sabes que quanto mais deres mais sorris
sorris de bocejos que sobejam
ar em excesso no meu tórax
de fumo
defunto
do fundo de mim sorrio agora
para a erva
para o vazio da paisagem
sublime
subliminar subi
até mim
para rir de ti
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
um ano inteiro
O que ela me tirou hoje não lhe pertencia de direito. Não aquilo que me extraiu, mas sim o acto de extracção. Não podia. Ocupar o espaço do meu corpo na sala, nos quartos, na passagem das portas, aquecendo o ambiente em demasia. Não podia. Deu-me o vazio habitual para melhor me oprimir com o cheio ocasional. Defeito por norma, normalmente por defeito. Fico desfeito quando se excede. Tudo pára, tudo se move, em redor do núcleo das suas pernas, ali, entre os olhos. É um movimento de superfície mas que arrefece quando se torna lento, que aquece quando acelera. Não podia. Hoje não. Era o último de uma série. O elemento disjunto que efectivaria a conjunção na heterogeneidade dos tempos por vir. Assim não. Deixou-me vazio por dentro, com uma raiva por fora. É claro que não pude dizer-lhe nada. Até logo. Boas férias. Recebi em troca uma vaga repetição da minha despedida. Como que um eco apagado, difuso e indiferenciado. Mas não havia sido assim antes, no exacto momento, num tempo cronologicamente medido? Exactamente igual, só que mais doloroso?
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
heterossexualidade pura
– Estava eu sentado no terraço a ver a olhar o mar
– Eu estava debruçada sobre ti
– Estava quase a chorar
– Abracei-te como nunca o fiz
– Pensei muito durante essa tarde pensei tanto… ia ficando louco
– Amei-te continuamente sem intermitências e serena. Conta-me mais… fala-me dessa tarde para sempre e sempre
– Não posso… já não a vejo
– Falo eu então meu amor
– Não… Eu tenho de ver… de voltar a ver e de olhar outra vez para o mar
– Vês ainda? Consegues ainda ver?
– Não sei já se não quero ou se não consigo
– E não é a mesma coisa?
– É
– Perdeste alguma coisa?
– Eu
– E quem me fala agora então?
– A minha voz
– Dádiva?
– E prazer
– Vou dizer-te quem és… Vou dar-te… Dar-te a ti… Devolver-te de mim…
– Se de mim me dás a mim… dou mais do que sou… não me torno assim mais do que aquilo que sou ao devolveres-me o que fui de ti?
– Se não guardaste o que me deste não…
– Devo então guardar-me em vez de dar-me?
– Deves antes revelar-te e dares-te naquilo que és em vez de dares o que és
– Mas se dou o que sou no lugar de me dar não terei dado um fantasma de mim?
– Terás antes criado em mim uma emoção voluptuosa que me terá enriquecido e embelezado. Sorrindo. E… no meu sorriso ter-te-ei devolvido um simulacro de emoção voluptuosa que te terá enriquecido e aumentado
– E tu?
– Poderei então contar-te outras histórias… E então tu…
– Saberei narrar também. Saberei nadar além ao longe naquele mar para lá do paredão. Além bem longe para lá de mim e de ti. Saberei amar em ti o que sou e em mim o que és… multiplicando-me e aumentando-me sempre e sempre. Assim como tu fazes
– Mas então deixas de ser tu não é?
– Eu?
– Deixas de ser a tua voz
– A minha voz conta sempre e sempre as histórias assim como a tua
– Sorri meu querido
– Sim… estava Sol
– Estavas só.
– Eu estava debruçada sobre ti
– Estava quase a chorar
– Abracei-te como nunca o fiz
– Pensei muito durante essa tarde pensei tanto… ia ficando louco
– Amei-te continuamente sem intermitências e serena. Conta-me mais… fala-me dessa tarde para sempre e sempre
– Não posso… já não a vejo
– Falo eu então meu amor
– Não… Eu tenho de ver… de voltar a ver e de olhar outra vez para o mar
– Vês ainda? Consegues ainda ver?
– Não sei já se não quero ou se não consigo
– E não é a mesma coisa?
– É
– Perdeste alguma coisa?
– Eu
– E quem me fala agora então?
– A minha voz
– Dádiva?
– E prazer
– Vou dizer-te quem és… Vou dar-te… Dar-te a ti… Devolver-te de mim…
– Se de mim me dás a mim… dou mais do que sou… não me torno assim mais do que aquilo que sou ao devolveres-me o que fui de ti?
– Se não guardaste o que me deste não…
– Devo então guardar-me em vez de dar-me?
– Deves antes revelar-te e dares-te naquilo que és em vez de dares o que és
– Mas se dou o que sou no lugar de me dar não terei dado um fantasma de mim?
– Terás antes criado em mim uma emoção voluptuosa que me terá enriquecido e embelezado. Sorrindo. E… no meu sorriso ter-te-ei devolvido um simulacro de emoção voluptuosa que te terá enriquecido e aumentado
– E tu?
– Poderei então contar-te outras histórias… E então tu…
– Saberei narrar também. Saberei nadar além ao longe naquele mar para lá do paredão. Além bem longe para lá de mim e de ti. Saberei amar em ti o que sou e em mim o que és… multiplicando-me e aumentando-me sempre e sempre. Assim como tu fazes
– Mas então deixas de ser tu não é?
– Eu?
– Deixas de ser a tua voz
– A minha voz conta sempre e sempre as histórias assim como a tua
– Sorri meu querido
– Sim… estava Sol
– Estavas só.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
DAR E RECEBER
Cada um só recebe mediante a sua capacidade de receber [...]; tudo o que recebeu constitui aquilo que é – logo, vale apenas pelo que daria, além daquilo que é; eis por que ninguém suporta receber mais do que aquilo que é capaz de devolver – sob a ameaça de pertencer àquele de quem não cessa de receber.
PIERRE KLOSSOWSKI
PIERRE KLOSSOWSKI
quinta-feira, 5 de junho de 2008
quarta-feira, 28 de maio de 2008
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Torcato Sepúlveda
É aqui que me cabe dizer obrigado a Torcato Sepúlveda, que conheci nos corredores comuns a diversas redacções de um desses grandes grupos editoriais. Mas é, essencialmente, uma despedida e um obrigado ao grande jornalista e crítico literário que ainda há tão pouco tempo julgou pertinente escrever sobre a Moeda Viva de Pierre Klossowksi nas páginas da NS/ DN.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
TRADUZIR: A MOEDA VIVA
Se tivesse de eleger um único fragmento d’A Moeda Viva , como se diz, para a posteridade, seria este: «só existe uma comunicação universal autêntica: a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Primeiro, porque esta passagem aponta para a impossibilidade de expressar numa outra língua a singularidade do ser textual a traduzir, a não ser por via de uma escrita intuitiva, guiada por sinais vindos do corpo e transmitidos pela pele. Depois, porque o excerto revela a principal linha de força do ensaio de Pierre Klossowski: a expressividade.
Não me propondo aqui fazer uma leitura d’A Moeda Viva (mas tão-só um breve apontamento sobre a experiência de traduzir o autor), obrigatória é, no entanto, a alusão à diversidade de termos e conceitos que povoam e assombram, quais fantasmas, para melhor o constituir, o território do discurso. Essa multiplicidade gera assim um estilo único, uma voz inconfundível, uma univocidade do ser; ou seja, uma única expressão para os seus múltiplos termos, fantasmas, simulacros. Eis a expressão do pensamento de um monómano – alguém que se fixa, repetidamente, numa única cena diversificada ora pelo acto, ora pelo objecto do acto, ora pelo actor: um corpo que se dá a ver a outro, nem que seja de si para si. Ora, esta encenação serviu, precisamente, o trabalho do tradutor.
A primeira versão portuguesa do texto foi redigida em 2001, foram, assim, necessários sete anos, número mágico (na ocorrência), para encontrar o lugar e o momento exacto para a sua publicação. Depois do encontro inicial, o da ligação, com José Bragança de Miranda, veio o encontro final, o da construção, com a Antígona. Um encontro para um acontecimento, uma vez por todas. O texto foi retomado, revisto, reescrito – numa palavra, reencontrado –, para pactuar com um processo que veio aumentar a sua respectiva imanência, tornando-o diverso, repleto de dobras e linhas de fuga. A tradução ganhava assim, por sua conta, a diversidade que lhe era indispensável para poder alinhar-se, ainda que paralelamente, com o texto que clamava ser traduzido.
Os termos, os conceitos, o frasear, foram sempre constrangidos e como que forçados pelo carrasco da sintaxe de maneira a manter perceptível, numa nova língua, a vítima suprema: o texto ainda não traduzido, virgem. Mas esse clamor klossowskiano exigia já e ainda um retorno do seu movimento interno: o da supremacia da musicalidade da expressão sobre a sintaxe. E é isto que sucede no frasear d’A Moeda Viva. O meu papel consistiu aqui em versar um ensaio filosófico, mas também em manobrar uma obra poética e literária, forjada num gesto de repetição, mas repetição da diferença, a diferença de um estilo. Este trabalho da segunda mão, da tradução, veio assim fechar um círculo que estava viciado pelo desejo de tradução, com recurso à libertação de um simulacro de texto: uma declinação diferencial na séria das línguas estrangeiras e estranhas à vítima virginal. O movimento simultâneo de encenação exibicionista e voyeurista – interno ao texto – assentou que nem uma luva ao meu papel de tradutor e permitiu a criação de uma nova epiderme, uma nova matéria textual capaz de realizar, afinal, um devir: «a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Se tiver sido bem sucedida, esta nova camada aposta ao texto virgem será a sua moeda viva, ao mesmo tempo o corpo textual que clamava ser traduzido e a sua tradução.
Luís Lima
Não me propondo aqui fazer uma leitura d’A Moeda Viva (mas tão-só um breve apontamento sobre a experiência de traduzir o autor), obrigatória é, no entanto, a alusão à diversidade de termos e conceitos que povoam e assombram, quais fantasmas, para melhor o constituir, o território do discurso. Essa multiplicidade gera assim um estilo único, uma voz inconfundível, uma univocidade do ser; ou seja, uma única expressão para os seus múltiplos termos, fantasmas, simulacros. Eis a expressão do pensamento de um monómano – alguém que se fixa, repetidamente, numa única cena diversificada ora pelo acto, ora pelo objecto do acto, ora pelo actor: um corpo que se dá a ver a outro, nem que seja de si para si. Ora, esta encenação serviu, precisamente, o trabalho do tradutor.
A primeira versão portuguesa do texto foi redigida em 2001, foram, assim, necessários sete anos, número mágico (na ocorrência), para encontrar o lugar e o momento exacto para a sua publicação. Depois do encontro inicial, o da ligação, com José Bragança de Miranda, veio o encontro final, o da construção, com a Antígona. Um encontro para um acontecimento, uma vez por todas. O texto foi retomado, revisto, reescrito – numa palavra, reencontrado –, para pactuar com um processo que veio aumentar a sua respectiva imanência, tornando-o diverso, repleto de dobras e linhas de fuga. A tradução ganhava assim, por sua conta, a diversidade que lhe era indispensável para poder alinhar-se, ainda que paralelamente, com o texto que clamava ser traduzido.
Os termos, os conceitos, o frasear, foram sempre constrangidos e como que forçados pelo carrasco da sintaxe de maneira a manter perceptível, numa nova língua, a vítima suprema: o texto ainda não traduzido, virgem. Mas esse clamor klossowskiano exigia já e ainda um retorno do seu movimento interno: o da supremacia da musicalidade da expressão sobre a sintaxe. E é isto que sucede no frasear d’A Moeda Viva. O meu papel consistiu aqui em versar um ensaio filosófico, mas também em manobrar uma obra poética e literária, forjada num gesto de repetição, mas repetição da diferença, a diferença de um estilo. Este trabalho da segunda mão, da tradução, veio assim fechar um círculo que estava viciado pelo desejo de tradução, com recurso à libertação de um simulacro de texto: uma declinação diferencial na séria das línguas estrangeiras e estranhas à vítima virginal. O movimento simultâneo de encenação exibicionista e voyeurista – interno ao texto – assentou que nem uma luva ao meu papel de tradutor e permitiu a criação de uma nova epiderme, uma nova matéria textual capaz de realizar, afinal, um devir: «a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Se tiver sido bem sucedida, esta nova camada aposta ao texto virgem será a sua moeda viva, ao mesmo tempo o corpo textual que clamava ser traduzido e a sua tradução.
Luís Lima
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